=

Prepare-se para entrar em uma zona...: Dois pesos, duas medidas.

domingo, 12 de junho de 2011

Dois pesos, duas medidas.

Como pai de duas filhas, eu sempre procurei tratar ambas com a mesma atenção e dedicação. Minha preocupação sempre foi a de não deixar uma impressão de "meu pai gosta mais da minha irmã do que de mim". Essa sensação é horrível.

Por diferentes que elas sejam, eu entendo que cada uma tem suas características próprias. Eu não gosto de dizer "defeitos" e "qualidades" porque acho isso extremamente subjetivo. Durante a minha vida sempre vi as pessoas mais velhas elogiando "qualidades" e repreendendo e criticando os "defeitos" de muitos à minha volta e minhas também.

Mas quem define o que é "defeito" e o que é "qualidade"?

Cada um tem suas próprias conclusões a respeito de qual é qual. E o que serve para você, pode não servir para mim. Na minha infância durante muitos anos tive que comer bacalhau nas sextas-feiras santas. Odeio bacalhau! Nunca gostei. Mas naquele dia, especificamente, serviam bacalhau, assado com batatas, cebolas, ovos e mais um monte de coisas.

O que pode parecer um banquete para muitos apreciadores desta iguaria era, e ainda é, um pesadelo para mim. Era um dia em que eu passava fome e a única coisa boa era reunir a família.

E porque eu era obrigado a comer algu que não gostava? "Porque sim" era a resposta. Porque não podia comer outra coisa? "Porque não pode!" era a outra resposta, entonada como se fosse uma obrigação minha nascer sabendo isso.

Bem mais tarde descobri que isso faz parte da crença cristã, que prega o não consumo de carnes vermelhas nesse dia. Só não descobri porque me enfiavam aquela droga goela abaixo, sem que eu sequer tivesse aceitado essa crença.

E fora isso, passei por muitas outras coisas desagradáveis durante minha vida. Minha mãe não compreende o sentido da palavra "igualdade". É até engraçado analisar tudo hoje. Enquanto meus irmãos eram constantemente incentivados a fazer várias coisas e suas notas eram comemoradas, no meu caso era tudo empurrado com a expressão "tem que fazer", e as minhas notas que não eram grande coisa, eram apenas criticadas.

Ah, sim! Eu uma vez tentei mudar isso. Acho que foi a primeira vez que tive vontade de estudar na minha infância/adolescência. Sim, faço esse parêntese de tempo porque hoje, me sinto à vontade para estudar o que gosto de fazer, ler livros, matérias, ver palestras. Mas naquela época eu não tinha essa escolha, tinha que estudar o que estava na pauta. É assim até hoje.

E não gostava de estudar, porque não via uma aplicação prática para aquilo tudo. De quê adiantava saber a tabela periódica ou as ligações covalentes entre qualquer que fossem os dois ou mais compostos? Química sempre foi uma incógnita para mim, nunca gostei, nunca entendi. E naquela época não via a menor utilidade para aquilo. E nunca gostei de fazer coisas à tôa.

Também ninguém se preocupou em me explicar nada. Professores incluídos.

Mas o ponto é que, vendo os meus irmãos sendo tão elogiados, fiquei com vergonha de nunca ter passado por aquilo. Fiquei pensando "onde eu estava errando?". Cheguei à conclusão de que as matérias escolares, poderiam ter essa função. "Estudamos para tirar boas notas e sermos reconhecidos por isso". Pode parecer óbvio, mas não basta dizer isso a alguém, é preciso que essa pessoa entenda.

Naquele momento entendi. E decidi que queria fazer parte daquele rol de pessoas elogiadas por seus feitos. Decidi então que a próxima prova seria minha grande virada. Checando a agenda, vi que seria de física. "Ótimo!"-pensei-"Assim será um desafio ainda maior e obviamente os elogios também!".

Faltavam poucos dias para a prova e eu não entendia nada do que ia cair. Normalmente eu tentaria decorar algumas coisas mais simples e, por que não, colar! Mas aquela vez era diferente. Eu tinha uma meta a cumprir, um objetivo a conquistar. Precisa de um bom plano.

Separei a matéria em partes: "entendo", "entendo pouco", "não faço ideia do que seja isso".

Descobri nesse momento que a maior parte da matéria estava concentrada em "entendo pouco" e "não faço ideia do que seja isso". Isso era um problema. Com o pouco tempo até o dia da prova, fiz uma seleção de exercícios. Comecei com o pouco que sabia e entendia pouco, assim podia deixar tudo como "entendo" e já teria uma parte da nota garantida.

Comecei fazendo os que já tinha feito em aula e corrigindo tudo depois, depois peguei o livro e comecei a fazer os exercícios que ainda não tinham sido pedidos pelo professor. Como tinha respostas no verso eu saberia se tinha acertado ou não. Mas o livro continha somente o resultado final, não descrevia o desenvolvimento, então quando não batiam os resultados eu era obrigado a refazer várias vezes até encontrar o erro.

E aí passei para a parte que eu não entendia nada. Como eram alguns dias até a prova, tive a chance de perguntar a alguns amigos como se resolviam os problemas que eu não tinha conseguido.

O que eu não entendia, no máximo passei a entender pouco. Aí tive que decorar umas fórmulas, mas estava apreensivo quanto à porcentagem da prova que seria baseada naquele conteúdo.

No dia anterior, revisei tudo. Fiz vários exercícios de toda a matéria. E no dia da prova, aconteceu algo que há muito não sentia: Eu sabia resolver os exercícios.
Claro que nesse meio tinha aqueles que eu achava que sabia, mas olhando a prova por cima, vi que tinha muitos bem parecidos com os que resolvi em casa, inclusive vários parecidos com os exercícios do livro que o professor não havia pedido para fazermos.

Foi uma grande expectativa até o dia em que as provas seriam devolvidas. Será que eu tinha conseguido? Será que eu teria falhado miseravelmente outra vez? Será que finalmente eu faria parte do turbilhão de elogios e risos que envolvem as boas notas? Quanto tempo fazia desde a última vez que eu tirei algo acima de 7? Na verdade fazia tempo que não tirava nada acima de 5,5 (a média era 5 e eu comumente ficava bem abaixo disso).

O professor vinha andando pela classe com a pilha de provas na mão e procurava os alunos. Então ia até a carteira dele e deixa a a prova em cima dela. O nervosismo fez uma tonelada de adrenalina ser injetada na minha corrente sanguínea. De repente as coisas pareceram andar mais devagar, em slow motion. "Não!"-pensei desesperado- "Assim vai demorar ainda mais!".

Eu não conseguia ouvir mais nada, a sala não estava em silêncio, alguns alunos que já tinham recebido suas provas comentavam o resultado. "E a minha? Cadê a minha?". Nenhum som ecoava na sala, apesar de eu ver as bocas se mexendo. Eu ouvia somente as batidas do meu coração. "Meu coração!"- no instante em que percebi que aquelas batidas surdas não eram os passos do professor, mas sim o meu coração batendo, fiquei um pouco aliviado. Afinal, ainda estava vivo!

Por estar em uma carteira próxima, o professor me olha e começa a folhear as provas. Um frio subiu na minha espinha e tive a impressão de que meu coração tinha parado quando eu vi que ele estava puxando uma folha do meio da pilha e, tudo em cãmera lenta, estava esticando o braço na minha direção.

Acho que se ele estivesse me dando um tapa na cabeça eu ia cair antes de perceber que tinha levado o tapa.

"Droga de câmera lenta! Como desliga isso?!"

Mas aí súbitamente a prova estava na minha frente. Olhei e vi alguns "X" espalhados nela. Mas como tinha alguns "C" (aquele "C" estilizado que os professores fazem, que fica parecido com a marca da Nike) tomei coragem e olhei a nota.

8.5.

Olhei para cima e tudo voltou ao normal. Deu tempo de ver o professor dizendo "parabéns! Gostei de ver!". Aí eu voltei a respirar e parei de suar frio. Missão cunprida! Agora era só voltar à base e colher os louros. Valeu a pena ter deixado de ver TV e estudado um pouco mais. Eu já estava imaginando como seria quando eu chegasse em casa com aquela prova. 8,5! Nem eu acreditava!

Até alguns colegas de classe me cumprimentaram, porque sabiam que as minhas notas não eram boas e acharam legal que eu estivesse melhorando.

E já estava fazendo os planos seguintes. "Agora não podia deixar a média baixar!"- tinha que manter aquele nível de notas e abranger também as outras matérias, porque uma só não faria diferença alguma. Por mais estranho que pudesse parecer, naquele momento eu mal podia esperar pela próxima prova. Qual seria o próximo desafio que eu iria detonar? (Já estava com arroubos de grandeza!).

Eu voltava da escola a pé e mal podia conter a ansiedade. Tentei correr até em casa, mas meus pulmões me lembraram que isso não era uma boa ideia. Quando parei de ver estrelas, voltei a andar, com passos mais rápidos e fui imaginando o que minha mãe diria quando visse a prova. Também já estava planejando como seria o estudo para a próxima prova. Matérias diferentes requerem abordagens diferentes.

Os 45 minutos habituais de caminhada passaram mais rápido do que imaginei, logo estava no portão de casa. Entrei empolgadíssimo, lembrando de tirar a prova da mochila pouco antes de entrar na sala, afinal, ela podia estar logo ali e eu tinha que fazer a entrada triunfal com o troféu em mãos.

A sala estava vazia. Mas ouvi barulho na cozinha e fui até lá, triunfante, chamando a minha mãe e fazendo mistério (sempre é bom fazer um pouco de suspense, parece que aumenta a grandiosidade do momento). "Mãe, adivinha só o que aconteceu hoje!".
Sem me olhar ela só perguntou de volta "O quê?" e aí saquei a prova dizendo "Tirei 8,5 em física!"

Naquele segundo que se passou entre eu terminar a frase e ela começar a dizer algo, revi mentalmente aquela cena digna de proganda de margarina, sorrisos se abrindo, cumprimentos e elogios efusivos, fogos e champagne... Mas antes que pudesse ir mais longe na minha imaginação, ouvi "E daí?".

Bom, certamente algo estava errado. Repensei rapidamente todos os elementos da cena. Nota boa, ok! Mãe ou pai, ok! Filho esforçado, ok! Então que diabos teria dado errado? Melhor tentar de novo.
"Mas mãe! É uma prova minha! Eu tirei 8,5 sozinho! Não é legal?"- disse eu, certo que aí sim, os louros viriam. Claro que a minha mãe não deve ter entendido da primeira vez que eu falei.

Então veio a resposta de uma forma que não deixasse dúvidas: "Ah! Você não fez mais que a obrigação, tá? Você tá pensando o quê? Que isso é alguma grande coisa?".
Na minha estupidez adolescente, ainda tentei um "mas". Nunca se deve tentar um "mas" em uma situação assim, só que o nó na minha cabeça era tão grande que eu nem pensei. Disparei um "mas eu nunca tiro notas boas, e dessa vez eu tirei".

Aí eu ouvi uma bronca, por causa das outras notas ruins, e um sermão sobre o quanto é difícil pagar um bom colégio, que ela quando tinha a minha idade, bla bla bla. E tudo isso sem sequer olhar pra mim uma única vez.

Me sentindo pior que o exército americano voltando do Vietnã, fui para o meu quarto. Sentei na minha mesa, onde alguns dias atrás estava sentado vom dezenas de exercícios de física á minha frente. Só que desta vez, tinha uma prova. Com um 8,5 marcado nela.

E em vez do cenário vitorioso, só conseguia lembrar da surra que acabava de levar. Ainda estava tentando compreender aquilo. Tentando achar uma utilidade para aquele 8,5. Eu deveria me sentir bem com ele, então porque me sentia tão mal. Era pior do que tirar uma nota baixa.

Quando percebi que a prova estava começando a borrar, concluí que "não serve pra nada!". Amassei e a joguei fora. "Isso serve para os meus irmãos, não pra mim."

Depois minha mãe, veio e tentou arrumar as coisas, disse que estava nervosa com sei lá o que. E que culpa eu tinha? Ela sempre quis empurrar a função dela de cuidar dos meus irmãos para mim. E ali ela tinha acabado de me mostrar que sempre há dois pesos e duas medidas. E era assim que as coisas funcionariam.

Já era tarde. Eu não queria exlicação alguma, ela já tinha dito o bastante. E qualquer elogio agora, parecia falso. Pior ainda, parecia uma tiração de sarro com a minha cara. Ela tentou pegar a prova amassada do lixo e desamassá-la para ver a nota. Mas não deixei. Tomei e rasguei o máximo que pude e torci os restos de forma a não deixar qualquer vestígio que pudesse ser identificado.

Eu não esqueço as coisas. Nunca esqueço e nunca perdoô. No máximo, relevo o que foi feito, mas não deixo passar.

E prometi a mim mesmo que as minhas filhas nunca passarão por isso. Pior é, hoje, estar de volta a esse mesmo cenário, que não mudou nada desde então, para continuar a escutar as mesmas reclamações e cobranças indevidas sempre.

Bom, isso devo à minha ex-mulher, à sua decisão de pedir separação para que não precisasse sair de perto dos pais dela e para que a irmão tivesse um banheiro extra na casa dela.

Pesando bem, parece que nunca me livrei dos dois pesos e duas medidas.


0 Comentários: