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Prepare-se para entrar em uma zona...: Ler ou não ler... Se não, como escrever?

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ler ou não ler... Se não, como escrever?

Por esses dias vi uma matéria na Superinteressante sobre um setor da ONU que cuida da educação e cultura. Eles publicaram uma pesquisa sobre os motivos que levam as pessoas a ler em países desenvolvidos e o porquê disso não acontecer, aqui por exemplo.

Eu já ia dizer na lata que "ora essa, em um país onde se elege e reelege um presidente semi-analfabeto (se não total, ninguém foi verificar isso), um deputado analfabeto o que mais poderia se esperar", mas foi aí que li o resultado da pesquisa.

O incentivo à leitura se deve principalmente à cultura. Isso começa em casa, o que já é um problema em um país como o nosso, onde a tv chega antes dos livros a qualquer pessoa, e para piorar conteúdos completamente desprezíveis na grade de programação. E aí li um dado que eu digo desde a minha época de colégio: "Os especialistas culpam a escola pela falta de leitores".

Explico. Na escola somos obrigados a ler um mundo de obras clássicas do século 19, que podem sim ser livros excelentes e ricos, mas que em nenhum momento atraem um adolescente de 15 anos. Como considera a literatura chata, ele não busca outras formas de leitura.

É óbvio! Como levaram 20 anos para descobrir isso? Não digo que não devemos ler os clássicos, mas eles deveriam ser apresentados de forma mais leve. Podemos ler trechos e estudar partes dos livros sem precisar ler a obra toda e, especialmente, sem ler todas as obras.

Conheço pouquíssimas pessoas que desde essa idade gostam da literatura clássica. Isso é questão de gosto. Nem digo que seja intelecto ou maturidade, mas é gosto mesmo. As pessoas gostam de ler o que lhes traz algum tipo de benefício. Para ler os clássicos é preciso um interesse pela época em que foram escritos, ou pelo romance. Esses livros retratam uma época e seus valores.

Mas serei sincero, eu odeio a literatura clássica. Passei mais de 10 anos sem entrar numa livraria devido a eles, especialmente Machado de Assis, que o escritor clássico que mais detesto.

Já ouvi muita gente dizer, inclusive num workshop sobre histórias em quadrinhos, que Machado é uma leitura obrigatória para quem quer contar histórias (ou desenhá-las). Porque ele tem um método descritivo fantástico. Porque isso, porque aquilo.

Não tiro a razão de ninguém, mas eu não gosto. O cara gasta páginas e páginas falando das malditas laranjas geladas no éter! Catzo! Já entendi da primeira vez que foi dito, que o infeliz era considerado elegante, fino, moderno, por causa das malditas laranjas geladas no éter!

Para quê repetir isso duzentas vezes? E para quê descrever um a um, praticamente, os azulejos portugueses da parede da cozinha? O livro teria menos da metade do tamanho, a minha tortura seria aceitável e economizaria papel!

Eu confesso que elegi pessoalmente o Machado como um ícone da literatura cansativa, arcaica, enroladora e, resumindo, chata. Tem outros ainda piores.

Mas considero importante saber o que ele fez, quais foram os outros autores contemporêneos e qual a relação entre eles. Mas sou contra a obrigatoriedade de ler as obras completas. Há coisas muito mais interessantes para serem lidas e essas obras, devem ser um lazer, um prazer e não uma tortura.

Ultimamente eu penso em como trabalha um escritor. Imagino como eu faria se quisesse escrever um livro hoje. Sei como não se deve fazer, mas será que eu li a quantidade de livros suficiente para me aventurar a escrever um deles? Mesmo que pequeno? Será que eu teria lido mais livros se não fosse o Machado e sua trupe de descrevedores de azulejos azuis importados de Portugal?

Sinceramente não sei. Mas confesso que eu sempre achei que deveria ler mais livros. Tento incentivar isso nas minhas filhas, mas me preocupo demasiadamente quando chegar a hora delas encararem as laranjas geladas em éter e os azulejos azuis portugueses.

E espero que elas consigam passar por essa experiência de uma forma menos danosa que eu, que tenham mais livros lidos na suas prateleiras do que eu e, se quiserem escrever um livro, que tenham todo o embasamento necessário.

Antes de escrever temos que ler e ler muito, o problema é o que ler.


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