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Prepare-se para entrar em uma zona...: Novembro 2010

sábado, 27 de novembro de 2010

O Show do Paul - 2

A expectativa era enorme. Uma oportunidade única para a qual eu já havia me preparado para ver passar longe, estava sendo entregue às minhas mãos. O que fazer? Só me restava aguardar, já que as regras diziam que seríamos todos contatados pela organização do concurso.

Mas a ansiedade não deixava. O show era dali a poucos dias. 4 para ser exato e eu imaginava como o convite seria entregue. Correio era muito arriscado, poderia extraviar. A melhor solução, e também mais rápida, seria entrega por motoboy ou algum serviço de entregas. Mandei um e-mail à organização do concurso para saber como seriam entregues os convites.

Fui informado que seria contatado por e-mail e que receberia todas as orientações. Não restava mais nada senão aguardar. No meio dos meus afazeres, fui buscar mais informações sobre o show. Seria no Morumbi, então fui ver a divisão do estádio e fiquei pensando em qual lugar eu iria ficar. Já me contentaria com qualquer lugar, mas imaginei que havia uma possibilidade de ficar na pista.

Seria maravilhoso! Se fosse a premium então... Nossa! Imagina estar lá perto do palco a poucos metros dele. Incrível. Mas não queria ficar criando muita expectativa, porque conhecendo a minha sorte, seria uma arquibancada, talvez uma um pouco mais próxima. Não fazia mal algum. Eu estava indo ao show!

Procurei me acertar com meus primos para saber como eles iriam, afinal o Morumbi é um estádio fora de mão e com uma estrutura precária ao redor. Eu fui ao show do Eric Clapton e o estádio do Pacaembú é muito melhor localizado e a infra-estrutura ao redor também é bem melhor. Assim como os meios de condução para chegar lá.

Fiquei sabendo que meus primos estavam organizando, com ajuda do tio rockeiro, uma van para levar todo mundo para o show. Beleza! Posso deixar o carro na casa deles, vou e volto de van, pego o meu carro e volto para casa. Lindo esquema!

Faltava acertar como eu faria com as pequenas. Elas concordaram em voltar para a casa da mãe mais cedo para que eu pudesse ir ao show. Na volta iria direto à casa dos meus primos e de lá, direto ver o Paul.

Recebo o e-mail da organização. Confirmo meu nome, documentos e endereço e me dizem que o meu convite, que dá direito a camarote, será entregue via motoboy. Camarote?! Será que tá certo? Puxa vida! Eu vou ao show e ainda por cima de camarote? Nossa! deixa eu ver no site. Por incrível que pareça não tinha nada referente a camarotes. Nem portão de entrada e nem a localização deles.

Bom, -pensei-, pode ser que seja arquibancada, mas com acesso a alguma estrutura anexa. Onde será que fica isso?

No dia seguinte recebo a ligação de alguém da organização, confirma alguns dados e se estarei em casa, porque só eu poderia rececer o prêmio. Ok. Estarei em casa sim. A ligação estava ruim, mas perguntei onde seria o portão de entrada para eu poder me organizar e ele me disse que junto com o convite viria uma carta explicando tudo e que eu ficaria num camarote com comida e bebida à vontade.

Legal! No dia seguinte, chega meu convite. Lá está o meu portão de entrada e todas as instruções necessárias. Só faltava chegar o dia. Estava quase lá!Os dias passam rápido, fizemos os últimos acertos quanto a van que nos levaria ao show. Contando todo mundo e dividindo o valor, seriam uns R$30,00 para cada um. Pouco mais que isso. Ótimo! Ainda por cima ficou barato, já que estacionamento nessas ocasiões é mais de R$100,00.

Tudo corria bem. Levei as pequenas e já fui encontrar a galera. Ainda estava cedo, marcamos a saída às 17h e eu chegaria por volta das 15h. Já fui pensando em pedir ao meu primo para colocar algumas músicas do Paul para irmos esquentando. Não precisou. quando cheguei já dava para escutar os acordes finais de alguma música e o público aplaudindo. Tive inclusive que esperar os aplausos abaixarem para tocar a campainha de novo e ele escutar.

Quando entrei, já dei de cara com um show do Paul na tv. Era um DVD que já estava quase furando de tanto ser visto. E ficamos lá os dois, aguardando o resto da trupe chegar. Ele tem um violão igual ao que o Paul McCartney usa em Blackbird e foi tocando junto com ele enquanto cantávamos a letra. Caramba! Que expectativa. As horas não passam!

Chegou a hora. Juntamos todo mundo na casa de um amigo deles. Eu esperava ver um cara da idade deles, e lá descobri que é um cara mais velho, integrante da banda do tio, mas muito jovial.

Chega a van e lá fomos nós ao show. Chegamos e cada um de nós entraria por portões separados. Eu precisava encontrar o portão 17 e eles o 2 e 4. Lembro de ter visto que eram em lados opostos. Visto que eles estavam seguindo para um lado, fui para o outro. Andei, andei, andei. Perguntei a um policial onde ficava o portão 17 e segundo ele: "é só continuar contornando o estádio e você chega lá."

Ok. E andei, andei, andei. A fila era tão grande que não dava nem para saber de onde era a fila. Perguntei algumas vezes e me disseram que era para a pista. E continuei seguindo o muro. Logo encontro os meus primos. Demos a volta no estádio, nos encontramos no meio do caminho e continuamos procurando o fim da fila ou o portão.

Finalmente achei o portão 17. Fila pequena. Foi só entrar e achar um balcão onde trocavam o nosso pré convite pelo convite oficial. Tinha uma fila pequena, mas tudo bem. Comparando com a que estava lá fora, aquilo nem era fila. Conversei um pouco com uma moça muito simpática que estva na minha frente. Para passar o tempo e tentar ficar menos ansioso também.

Nada de mais. Finalmente chega a nossa vez. Ela entrega o cartão e eu o meu. Uma outra moça já coloca a fitinha no meu braço e então... Algo errado.
-Este número já entrou.
-Tem certeza? Vê se você não marcou errado.

As moças estavam com algum problema e pelo que vi, era o meu convite que estava dando problema.

-Peraí, não é possível. Tem alguma coisa errada, eu confiro antes de marcar a entrada e este número já entrou.
-Deixa eu ver... Ah! Já sei. Este convite é para amanhã!
-... heim? Como assim - disse eu completamente pasmo- amanhã não tem show. Só hoje!
-Tem sim, moço. E este convite é para amanhã.
-Putz! Não acredito nisso. Não pode ser!

Peguei a carta que veio junto com o convite e fiquei procurando alguma data. A menina olhou junto e achou a linha em letras em negrito dizendo: "Convite para o show do dia 22/11".

Não conseguia acreditar que estava lá no dia errado. Mas eu tinha tanta endorfina no sangue que sequer consegui achar ruim. A moça não estava conseguindo retirar a fitinha então eu mesmo a retirei.

Sensibilizadas pelo meu desastroso engano, as moças da recepção tentavam encontrar algum ponto positivo naquela situação que seria cômica se não fosse ridícula.
-Olha, pelo menos você vai encontrar a gente de novo amanhã!
-Só por isso já digo que valeu a pena. Mas afinal, poderia ser pior. Já pensou se eu venho um dia depois? Melhor voltar amanhã que não voltar, né?
-Está certo! E olha só! Vou fazer o seguinte, amanhã quando você chegar nem precisa pegar a fila. Me procura direto e eu passo você na frente, ok?
-Fechado! Então nos vemos amanhã!

Ainda desejei um bom show aos que estava na fila depois de mim e saí. E fiquei pensando: "Como diabos eu vou fazer para voltar para casa?"

Como ia voltar de van, nem verifiquei saídas alternativas. E pior! Acabei de lembrar que meu carro estava na garagem da casa do meu primo.

Liguei pra ele e rapidamente consegui explicar a grande estupidez que fiz. E disse que precisava pegar o meu carro lá na casa dele.

-Cara, faz assim. Acha a gente aqui na fila porque nós ainda não entramos. Eu te entrego a chave.
-Beleza.

E lá fui eu rodar o estádio de novo. Com essa era a segunda volta. Depois de muito andar, achei os caras na fila. E todos com aquela cara de "COMO VOCÊ FAZ UMA COISA DESSAS?!". Bom, nem eu sei. Mas sou mestre em dar esse tipo de mancada.

Peguei a chave, fiz um pouco de hora lá, na fila com eles. Aproveitei para comprar uns hotdogs para eles não precisarem sair da fila e resolvi ir embora.

E aí? Como eu faço para ir embora dali? De carro eu sei voltar, mas a pé? Bom, policial ali não faltava. Algum deles deveria saber como eu faria para chegar a um metrô.

Me indicaram descer a rua e pagar a bifurcação à direita e pegar um ônibus que iria até a Sé. Queria um mais perto, mas de qualquer forma, servia. Segui a orientação do policial, mas algo estava errado. A rua não era aquela e para seguir o que ele disse, eu teria que seguia à esquerda, não à direita. Mas fui à direita mesmo assim, porque já estava ficando cansado de andar e para ir para o outro lado seria mais caminhada.

Quando estou subindo, vejo um ônibus. Faço sinal e tento perguntar se ele passa em alguma estação do metrô mas nessa hora junta um monte de desocupado, meio bêbados, outros vendedores ambulantes que queriam carona, um outro perdido bebaço que também queria carona porque estava sem grana e bêbado feito um gambá. E só depois dessa leva entrar eu consigo perguntar ao motorista. E a resposta: "Não".
-Sabe de algum que passe aqui e no metrô?
-Também não.

É, acho que o negócio é voltar e fazer o caminho indicado pelo policial. Nisso passo por um rapaz que está vendendo bebidas.
-Ô! Você quer ir pro metrô?
-É, mas acho que aqui não passa nenhum ônibus. Vou voltar lá pra baixo e procurar um.
-Não cara, fica aqui que passa sim. Tem um que vai até a estação da Sé. Faz a volta lá na praça. Chama República, eu acho. Mas eu sei qual é. Fica aqui que eu te aviso.
-Puxa, valeu!

Vem um ônibus, mas a resposta do motorista é a mesma, não passa no metrô e não sabe qual passa.

Ok. Mas o vendedor me assegura que ali passa sim. É só esperar. Cansado que estava, resolvi mesmo ficar por lá. E eis que passa um tipo de micro-ônibus que passa nas Clínicas. Beleza! Já serve!

E lá vou eu. Sento no fundo, perto da porta e aí começo a pensar no que fiz. Como consegui fazer aquilo? Naquele momento, comecei a pensar que todas as vezes que algo bom me acontece, algo ruim acontece logo em seguida. Parece um lembrete de que coisas boas para mim, são apenas a exceção que confirma a regra. Um prenúncio de todas as desgraças que aconteceriam dali por diante.

Naquele momento, fiquei triste por não ter podido ver o show. Aquele domingo era o dia ideal, quando todos estariam mais entusiasmados. Seria televisionado. Não que eu tivesse a esperança de aparecer na tv, isso sequer me interessa, mas todo mundo fica mais empolgado e o show tem mais energia.

Lembrei do momento em que eu tirei a pulseira de plástico que dá direito à entrada no camarote. Só ali sento como se fosse um rebaixamento ou algo assim. Mas quer saber de uma coisa? Eu não vou me deixar abater por isso. Rocky Balboa disse:"Não importa quão forte você bate. Importa quão forte você é atingido e continua a seguir em frente" (It ain´t about how hard you can hit. It is about how hard you can get hit and keep moving´foward!)

Está certo! Amanhã eu volto. Agora só tenho que pensar em como pegar meu carro.

(Continua...)


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Show do Paul

É realmente engraçado como algumas coisas acontecem. Durante a semana, faz sol, depois chove sexta à noite, sábado e domingo. Você muda de faixa no meio do trânsito e aquela onde estava começa a andar. Está sozinho e não aparece nada, começa a namorar e chove mulher... Bom, esta última nunca aconteceu comigo.

Mas parece que é sempre assim, passamos um bom tempo buscando coisas que acabam não acontecendo e algumas, para piorar, acontecem na hora errada. E aí o que deveria ser bom, vira um desastre.

Eu passei o ano procurando coisas novas para fazer, estou tentando me estabelecer como autônomo ou então colocar um novo produto no mercado, mas não deixei de enviar currículos e responder a anúncios. Acho que uma hora ou outra alguma coisa tem que dar certo. E só vou saber tentando. Resolvi que já passei tempo demais esperando o momento certo, a hora é agora e estou fazendo tudo ao mesmo tempo.

E continuei fazendo tudo ao mesmo tempo, e continuei, continuei... E nada de resultado. Nada dava certo. E nem errado, porque se desse errado, ao menos era uma possibilidade a menos para trabalhar.

Isso já estava me cansando e eu fico pensando que algo deveria acontecer, já deu tempo suficiente, o que estaria errado?

Fico avaliando e tentando encontrar o erro para poder corrigí-lo. Vejo muitas coisas que eu gostaria de fazer e que preciso abrir mão agora, até que as coisas entrem nos eixos. Justo agora o Paul McCartney resolve vir para cá. Dois primos vão ao show, claro, porque também são músicos e tocam sempre. Um tio deles é músico profissional e é claro que também vai. Inclusive se encarregou de comprar os ingressos.

Encontro os dois e eles comentam que estão pensando em ir para a arquibancada, porque a pista é meio cara e bla,bla,bla...

-Ficaram loucos?! Meu! Compra a pista premium! Depois corta uns gastos, se aperta um pouco, deixa de sair uns meses, mas vai pra pista! Senão vão se arrepender pro resto da vida.
- Hmmmm... Tá certo, né? Afinal é o Paul!
- Claro! E olha, não é querer gorar, mas vai saber se ele volta. Aliás, se vai ter tempo de voltar!
- É, pensando bem acho que vale a pena ir pra pista.

E lá foram eles tentar comprar a pista premium. Claro que devido à procura, a pista premium simplesmente evaporou. Mas conseguiram a pista, se derem sorte chegarão bem perto do palco.

E eu fiquei me conformando, afinal não poderia ir nem na arquibancada mais barata. Não sou de ir em shows, só fui a um em toda a minha vida. Eric Clapton, no Pacaembú. E até hoje penso que deveria ter pego a pista.

Bom, pelo menos eles vão e quem sabe tiram umas fotos e depois me contam como foi. Se passar na tv ou lançaram o DVD do show, eu posso ver depois. Até me empolgava todo falando com eles sobre como seria o show. Até parecia que eu ia também. Mas eu estava muito feliz que eles estavam indo. Conheço muita gente que gostaria de ir, até minha filha queria, mas cada um estava impedido de ir, pelas mais variadas razões. A principal, era grana mesmo.

Nesse meio tempo vejo um twitt da Mirian Bottan sobre uma promoção chamada SENAC Box. Entrei para ver e vi que já tinha começado. Havia um mural com um mosaico que ia sumindo conforme as pessoas iam clicando nos quadrinhos. O regulamento dizia que ali embaixo tinha uma frase e quem descobrisse qual era a frase ganharia diversos prêmios.

Seriam duas semanas de promoção. Na primeira os cinco primeiros colocados ganhariam ingressos para o show do Paul. Na segunda semana, os três primeiros ganhariam um X-Box 360 cada.

Como o show já seria na próxima semana, imaginei que a primeira semana já era. Tudo bem, afinal, eu já não ia ao show mesmo. Vou tentar ganhar esse X-Box. Eu já tenho um, mas posso vender e comprar um Wii que as meninas tanto querem.

Lá fui eu. Ainda não haviam muitos quadros abertos, mas já dava para ver algumas letras. Para facilitar, fiz um print-screen e joguei no Photoshop. Aí fui encaixando letras e tentando formar palavras.

Depois de um bom tempo, cheguei a uma frase coerente. Mandei a minha sugestão e fui no google buscar a frase. Achei até quem disse a frase. Beleza! Então deve estar certo. Espero ter ganhado!

E aí esqueci isso porque o resultado sairia só na semana seguinte.

Uns dias depois vejo um twitt direcionado para mim e para mais algumas pessoas perguntando se eu já havia recebido meu ingresso.

"Que mané ingresso?! Esse cara tá doido..."- pensei. Logo lembrei do concurso e fiquei meio preocupado porque depois dos X-Box o prêmio era um ingresso para um evento de aminação, eu acho, e eu não queria isso. Queria o X-Box! Todos os colocados também ganhariam um pacote de licenças Microsoft. Mas eu queria o X-BOX!

Fui lá ver e lá estou eu! Na lista de premiados da primeira semana!

"Putz! Que droga! Errei a semana! Caramba, não ganhei o X-Box, e já perdi 3 dias... Espera aí... É o show do Paul..."- sim, só aí caiu a ficha. Quer dizer, não caiu direito. Mas lá estava eu na lista de ganhadores dos ingressos do show do Paul McCartney!

Caraca! Eu vou no show...!
(continua...)


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ler ou não ler... Se não, como escrever?

Por esses dias vi uma matéria na Superinteressante sobre um setor da ONU que cuida da educação e cultura. Eles publicaram uma pesquisa sobre os motivos que levam as pessoas a ler em países desenvolvidos e o porquê disso não acontecer, aqui por exemplo.

Eu já ia dizer na lata que "ora essa, em um país onde se elege e reelege um presidente semi-analfabeto (se não total, ninguém foi verificar isso), um deputado analfabeto o que mais poderia se esperar", mas foi aí que li o resultado da pesquisa.

O incentivo à leitura se deve principalmente à cultura. Isso começa em casa, o que já é um problema em um país como o nosso, onde a tv chega antes dos livros a qualquer pessoa, e para piorar conteúdos completamente desprezíveis na grade de programação. E aí li um dado que eu digo desde a minha época de colégio: "Os especialistas culpam a escola pela falta de leitores".

Explico. Na escola somos obrigados a ler um mundo de obras clássicas do século 19, que podem sim ser livros excelentes e ricos, mas que em nenhum momento atraem um adolescente de 15 anos. Como considera a literatura chata, ele não busca outras formas de leitura.

É óbvio! Como levaram 20 anos para descobrir isso? Não digo que não devemos ler os clássicos, mas eles deveriam ser apresentados de forma mais leve. Podemos ler trechos e estudar partes dos livros sem precisar ler a obra toda e, especialmente, sem ler todas as obras.

Conheço pouquíssimas pessoas que desde essa idade gostam da literatura clássica. Isso é questão de gosto. Nem digo que seja intelecto ou maturidade, mas é gosto mesmo. As pessoas gostam de ler o que lhes traz algum tipo de benefício. Para ler os clássicos é preciso um interesse pela época em que foram escritos, ou pelo romance. Esses livros retratam uma época e seus valores.

Mas serei sincero, eu odeio a literatura clássica. Passei mais de 10 anos sem entrar numa livraria devido a eles, especialmente Machado de Assis, que o escritor clássico que mais detesto.

Já ouvi muita gente dizer, inclusive num workshop sobre histórias em quadrinhos, que Machado é uma leitura obrigatória para quem quer contar histórias (ou desenhá-las). Porque ele tem um método descritivo fantástico. Porque isso, porque aquilo.

Não tiro a razão de ninguém, mas eu não gosto. O cara gasta páginas e páginas falando das malditas laranjas geladas no éter! Catzo! Já entendi da primeira vez que foi dito, que o infeliz era considerado elegante, fino, moderno, por causa das malditas laranjas geladas no éter!

Para quê repetir isso duzentas vezes? E para quê descrever um a um, praticamente, os azulejos portugueses da parede da cozinha? O livro teria menos da metade do tamanho, a minha tortura seria aceitável e economizaria papel!

Eu confesso que elegi pessoalmente o Machado como um ícone da literatura cansativa, arcaica, enroladora e, resumindo, chata. Tem outros ainda piores.

Mas considero importante saber o que ele fez, quais foram os outros autores contemporêneos e qual a relação entre eles. Mas sou contra a obrigatoriedade de ler as obras completas. Há coisas muito mais interessantes para serem lidas e essas obras, devem ser um lazer, um prazer e não uma tortura.

Ultimamente eu penso em como trabalha um escritor. Imagino como eu faria se quisesse escrever um livro hoje. Sei como não se deve fazer, mas será que eu li a quantidade de livros suficiente para me aventurar a escrever um deles? Mesmo que pequeno? Será que eu teria lido mais livros se não fosse o Machado e sua trupe de descrevedores de azulejos azuis importados de Portugal?

Sinceramente não sei. Mas confesso que eu sempre achei que deveria ler mais livros. Tento incentivar isso nas minhas filhas, mas me preocupo demasiadamente quando chegar a hora delas encararem as laranjas geladas em éter e os azulejos azuis portugueses.

E espero que elas consigam passar por essa experiência de uma forma menos danosa que eu, que tenham mais livros lidos na suas prateleiras do que eu e, se quiserem escrever um livro, que tenham todo o embasamento necessário.

Antes de escrever temos que ler e ler muito, o problema é o que ler.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Made in China

Já faz quase um ano que estou trabalhando como consultor. A coisa não vai no passo que eu gostaria, mas está andando e estamos fazendo algumas mudanças para tentar acelerar o processo.

Em contrapartida há alguns benefícios como almoçar em casa todos os dias, não pegar trânsito, poder acordar 1h antes de começar a trabalhar e ainda chegar cedo depois de tomar café da manhã com calma. Claro que sempre tem um vizinho ou outro sem noção, educação ou audiçao que insisti em compartilhar com você o último grande sucesso do repeat always do seu i-Pod.

Mas isso é contornável.

Contudo, às veses sinto falta dos colegas de trabalho e do relacionamento com outras pessoas, outros departamentos. Não tem a enchação de saco, mas também não tem o papo na sala de café, que pode ser rápido mas sempre é divertido, e é claro, as brincadeiras entre os colegas.

Ah! Isso realmente faz falta, para quebrar a monotonia. Como uma vez em que um amigo resolveu comprar um celular novo. Bom, ele sempre comprava um celular novo. Gostava de dizer que tinha o último modelo, afinal, era do TI.

E como era do TI, não queria pagar o preço de loja, ia encontrar um site ou alguma forma de trazer o celular de fora por dois terços do valor.

De tanto fuçar achou um site que prometia trazer qualquer equipamento da China a preços módicos. Procurou, procurou e achou o aparelho que queria. E olha, melhor do que ele esperava. Era pela metade do preço de loja.

Chamou um amigo, que além de trabalhar com ele, já era companheiro de infância e de muitas aventuras, para perguntar sobre o site.

-Cara, você conhece esse (site)?
-Claro! É da hora! Pode comprar que esse (aparelho) é muito bom!

O que está entre os parêntesis no diálogo acima, não foi dito por nenhum dos dois e assim começou a confusão porque um, achando que se tratava do aparelho disse para comprar sem susto, o outro acreditando que o amigo falava sobre a idoneidade do site... Comprou.

As semanas passaram e nada do aparelho chegar. Caiu na fatura do cartão, ele pagou e nada do aparelho. Quase todo dia ele ligava para o número que constava no site como SAC. Além do speech em infinitivo ele também sempre escutava que o aparelho estava chegando. Que vai chegar.

-Olha aí cara, tá vendo? É culpa sua. você me indicou esse site e os caras me engambelaram.
-Eu?!?! Quando eu fiz isso? Acha que eu ia comprar num site desses?
-Como assim?! Foi aquele dia que eu te perguntei o que você achava e você disse: "É da hora, pode comprar!"
-Eu estava falando do aparelho. Caraca! Você achou que eu estava falando do site? hahahahahaha!

Nesse momento todos no setor foram unânimes no comentário sobre a compra: Hahahahahahahahaha!

Após uns 10 minutos de furioso debate sobre a inconsequente compra feita pelo colega, era de se esperar que isso não passasse com o tempo. Todo dia e para tudo que acontecia a solução era "comprar num tal site da China".

Um dia, o tampinha que era dono do fantasmagórico e mitológico celular, se vira e diz com lágrimas nos olhos:"Tá certo. Vou dizer uma coisa. E é para todos vocês"- dizia apontando para cada um de nós -"Se algum de vocês conseguir ligar lá e fazer esse celular chegar, eu dou R$100,00 na hora".

Virou-se e foi ninguém sabe pra onde, porque ele estava indo ao CPD que ficava do outro lado para onde ele se dirigiu.

Comentamos que aquilo realmente estava passando dos limites, afinal ele não estava mais bravo com a situação, ele já estava triste.

Comovido, fui buscar algumas informações sobre o site. Em vez de achar algo útil a ele, encontrei um cara que em algum outro lugar do mundo, também comprou um celular nesse site. Só que o caso dele era diferente. Ele recebeu o aparelho, mas chegou com defeito e eles não queriam trocar. Para provar que ele comprou o aparelho lá, ele escaneou o invoice que veio na caixa.

Aí não resisti. Como o invoice estava em boa resolução, editei no photoshop para que o nome do destinatário ficasse parecido com o do meu amigo. Imprimi e fiz uma caixa de papelão. Coloquei umas revistas no fundo para ficar mais pesada e imprimi e recortei um aparelho de celular gigante o maior que consegui em uma folha A3. E coloquei lá dentro.

Do lado de fora, imitei alguns carimbos, fiz algumas anotações parecidas com ideogramas em um canto da caixa e colei um plástico com o invoice falso na frente. Esperei até que ele fosse para fora do andar e fui até a recepção.

-Quando ele voltar entrega isso, deste jeito, ok? Diz que a recepção lá de baixo mandou agora aqui pra cima.
-Ah, tá bom. Pode deixar.

A recepcionista era fantástica. Muito bonita, simpática e sempre prestativa. Claro que, se ela soubesse o que era, não teria entregado.

Nós esperamos já com todos os celulares que filmam a postos. Nós sabíamos que ele iria querer vingança pelas piadas que fizemos e ia pedir para filmar ele recebendo.

Aí ele entra. Mal pude ver a cabeça dele por cima das baias mas o sorriso na cara dele eu pude ver.

Ele entrou no setor radiante.

-Não disse que ia chegar? Não disse? Eu disse! Eu disse! Vocês ficaram me zoando! Olha só! Tá AQUI Ó!

Nessa hora eu fiquei feliz por não termos feito um bilhete falso da MEGA SENA. E ele apontava, um a um e dizia que tava todo mundo errado.

-Filma aí! Pode filmar que é para eu mandar para todo mundo que me zuou!
-Opa! Claro! Pode deixar!

É claro que já estávamos filmando fazia tempo.

Ele soltava uma risada malévola enquanto ia abrindo a caixa. Arrancou o plástico com o invoice e jogou num canto, tirou a fita adesiva e... Ficou branco.

Olhava para dentro da caixa e para nós que a essa altura já não estávamos mais nos segurando e ríamos a plenos pulmões.

-Caras... Vocês... Vocês me zuaram...?

E então ele puxa lentamente lá de dentro o celular de papel gigante que eu fiz.

Eu achei que ele ia ter um ataque cardíaco naquela hora. Mas ele só deu um sorrisinho amarelo e prometeu vingança.

Ah! Esse é o tipo de coisa que fazia valer a pena trabalhar lá!